Crónica

 

O direito ao assobio e outras coisas

Quando Miguel Veloso, desagradado com os assobios dos sócios e adeptos do Sporting, disse que “os que vêm ao Estádio para assobiar, é melhor que fiquem em casa”, estava a portar-se, não como um profissional que é, mas como um menino mimado, que não sei se é. De qualquer forma, a sua é uma reacção inaceitável. Se os adeptos e sócios do clube seguissem o “conselho”, quem lhe pagava os salários, com quem encheria ele as bancadas do estádio, quem garantiria a existência do Sporting, não apenas em termos económicos e financeiros, mas como entidade social e grande instituição desportiva que é? E quem é que os aplaude nas horas boas, sofre e chora nas más?

Rui Cartaxana

O mais estranho é que ninguém pegou no braço do menino e lhe disse umas coisas sensatas e inevitáveis. Pelo contrário. Paulo Bento, pelo menos, apoiou a insurreição do jovem futebolista e, ainda que veladamente, criticou os adeptos, achando “estranho”, que uma equipa que (e enumerou os sucessos dos últimos anos) fosse assobiada no seu próprio estádio.


 

Eu diria que os protagonistas do futebol indígena estão mal habituados. É que estas reacções leoninas ao irrefragável direito de quem paga a protestar se achar que o deve fazer, sucedem a uma semana em que algumas vedetas do FC Porto, desta vez com a bênção do inefável Jesualdo, deram pública mostra de receber muito mal os assobios dos adeptos portistas perante os menos bons resultados e exibições da sua equipa neste começo de época.

Estas situações levantam uma questão curiosa em que alguns teóricos julgaram ver o fim próximo do espectáculo futebolístico, tal como é hoje, com a transformação dos clubes em sociedades anónimas e a subsequente tomada de posse dos grandes clubes por empresários e investidores. O clube tradicional morria, os adeptos e sócios ou eram accionistas da sociedade ou iam à vida.

Mas não é bem isso que está a acontecer, por exemplo em Inglaterra ou Itália, onde uma maioria de clubes, os maiores, são hoje sociedades cotadas, propriedade de investidores. Pertença o clube a quem pertencer, os seus fiéis adeptos continuam a assobiar e a protestar, sem que ninguém os mande para casa. De tal modo, que ainda recentemente os do Newcastle, por exemplo, fizeram tanto e tamanho incómodo que o dono do clube, o sr. Mike Ashley (que pagou 400 milhões de libras por ele) teve que o pôr à venda.

Moral da história: ninguém cala, muito menos manda para casa, um verdadeiro adepto ou sócio de um clube. Protestar ou assobiar por ele é um direito, que se não vem, devia vir na Constituição. Com os matulões do FCP pouco ou nada há a fazer, mas com o menino Veloso ainda se vai muito a tempo.